É de conhecimento geral que as pragas são um grande problema na agricultura e em agroflorestas. O ataque de insetos causa a diminuição da produtividade nas culturas e inicia-se desde a semeadura, passando pelas fases vegetativas e reprodutivas das plantas, podendo também ocorrer danos aos produtos armazenados, em pós-colheita.

Na década de 80 por exemplo, em várias regiões do Brasil, produtores rurais encontravam dificuldades para implantar culturas, devido à falta de recursos financeiros para manejar e controlar formigas, lagartas, e outros insetos de importância econômica, por não haver inseticidas no mercado ou ainda pela inexistência de orientação técnica.

Como uma alternativa aos inseticidas químicos/sintéticos, diversas pesquisas têm demonstrado a viabilidade do uso de óleos essenciais e outras substâncias vegetais no controle de pragas, devido a sua eficiência, facilidade de aquisição, baixo custo e segurança para os aplicadores e consumidores.

Existe um abundante número de espécies vegetais que produzem compostos secundários naturais com ação inseticida, sendo os mais importantes os monoterpenos e seus análogos, presentes em óleos essenciais, resinas e látex de plantas superiores (plantas que vivem independente da umidade ou da sombra, se reproduzem através de polinização). São compostos geralmente lipofílicos, com alto potencial para interferências tóxicas em funções bioquímicas, fisiológicas e comportamentais contra insetos.
 

Regulamentação e boas práticas


No Brasil, o órgão responsável pelo controle dos inseticidas é a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), estabelecendo as normas para registro, fabricação, rotulagem, importação, exportação e comércio destes produtos. Também possuímos o MAPA (Ministério da Agricultura e do Abastecimento), ambos concedem os registros dos inseticidas e suas autorizações. Sendo regidos por leis, decretos, instruções normativas e portarias específicas. Um exemplo de patente é WO/2011/117272, um óleo essencial de Jasmin (cis-jasmona) sendo uma alternativa para os piretroides, um inseticida químico muito utilizado na agricultura, que controle desde percevejo e lagartas até moscas.

Do outro lado, temos organizações que concedem selos de certificação florestal as quais têm por objetivo difundir o uso racional dos recursos naturais, garantindo a sua existência no longo prazo e promovendo o bom manejo florestal. Para atingir esse objetivo, estas instituições criam regras reconhecidas internacionalmente, geralmente chamadas de Princípios e/ou Critérios.

 
A exemplo dessas certificações, podemos citar a renomada Rainforest Alliance (Antiga Certificadora UTZ), que tem um programa e selo para agricultura sustentável reconhecida mundialmente para as culturas de CAFÉ, CHÁ, CACAU E AVELÃ. A Rainforest requer que os produtores usem o MIP (Manejo Integrado de Pragas e Doenças) para promover o uso de métodos alternativos para o controle de pragas e doenças, ao mesmo tempo em que aumentam a produtividade e reduzem os riscos à saúde humana e ao meio ambiente, recomendando pesticidas somente em último caso, quando um controle químico não puder ser evitado.
 
 
Nesse caso, deve-se optar pelo pesticida com máxima eficácia contra a praga e mínima toxicidade para as pessoas, a flora e a fauna. Alinhada com isso, a Rainforest (UTZ) trabalha em prol da eliminação progressiva de pesticidas altamente perigosos, conforme recomendado pelo conselho da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação - OMS, 2013) e, portanto, desenvolveu uma Lista de Pesticidas Banidos e os que estão sob Observação de Pesticidas, a qual pode ser consultada aqui.

Dentre essas regras, existem outras que regulamentam e/ou restringem o uso de determinados produtos químicos para o controle de pragas e doenças das florestas plantadas. Por exemplo, a sulfluramida, tradicionalmente utilizada no setor de florestas na forma de iscas granuladas, para o controle de formigas cortadeiras.

A OPAS (Organização Panamericana de Saúde) apresenta inúmeros estudos sobre os perigos dos agrotóxicos. Entre os inseticidas orgânicos sintéticos, os mais persistentes no meio ambiente são os organoclorados, permanecendo no solo por dezenas de anos após sua aplicação. Dados atualizados colocam o Brasil como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, seguido pelos EUA. Infelizmente, de acordo com a ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) a quantidade e qualidade dos agrotóxicos que vem sido utilizados tem gerado relevantes contaminações; os danos à saúde vão desde diversos tipos de câncer (incluindo de cérebro, pulmão, próstata e linfoma), problemas neurológicos, mentais, reprodutivos, desregulação hormonal, e outros.
 

Defensivos agrícolas ou Óleos essenciais?

Os agrotóxicos em altas concentrações diminuem a respiração, transpiração e a fotossíntese das plantas, por desordem metabólica na proteólise (quebra de proteínas) e na proteinossíntese (síntese de proteínas) nos tecidos vegetais. A “teoria da trofobiose” menciona que uma planta desequilibrada nutricionalmente é mais suscetível a pragas e patógenos. Tanto o excesso de adubação mineral (fertilizantes químicos) e o uso de agrotóxicos causam acúmulo de nitrogênio, aminoácidos livres, e açúcares no suco celular e na seiva da planta, sendo alimento que pragas e patógenos utilizarão para se proliferar. Abaixo listamos aplicações que podem ser feitas a partir de algumas plantas para o combate de pragas:
 
Obs.: Na seção abaixo: “Para se aprofundar mais”, você pode consultar um material complementar, com diversas receitas de defensivos naturais e como prepará-los de forma caseira.

Em escala comercial, no Brasil um dos produtos amplamente utilizados é o óleo de Neem, adequado para o controle do tripes, pulgões, moscas brancas, cochonilhas e ácaros. Sendo obtido através de uma planta indiana chamada Neem. A sua função é criar uma película protetora sobre as folhas, impedindo que os ovos dos insetos se desenvolvam. Seu cheiro e gosto também agem repelindo as pragas. Sua dosagem recomendada é de 2ml/ L de água, uma vez por semana. 

Os óleos essenciais tem usos que extrapolam a área agrícola, sendo também utilizados na área de saúde devido ao seu potencial antifúngico, inibindo o crescimento micelial e germinação de esporos. Um exemplo é a planta medicinal conhecida popularmente como Jasmim, seus usos relatados são como antídoto para mordedura de serpentes, calmante em dor de dentes e para o tratamento de verrugas. Outras espécies do gênero são utilizadas para tratamento de feridas, herpes, tumores e ainda, como hemostática, hipotensora e cardiotônica.
 
Para se obter óleos essenciais, geralmente as folhas das plantas são levadas a um laboratório onde ocorrerá sua extração em um processo de destilação. As folhas são colocadas em um balão de fundo redondo com uma manta aquecedora, sendo um processo extremamente lento a obtenção do óleo. A sua validade dura em torno de 12 meses quando armazenado em uma embalagem hermética.
 
 

Caso prático - Óleo essencial de eucalipto no controle da formiga carpinteira

Um estudo recente na PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) analisou o uso do óleo essencial de eucalipto, no qual se comprovou a eficácia do controle da formiga carpinteira, uma praga de extrema importância florestal. Nesse experimento foram coletadas folhas da espécie Eucaliptus grandis para fazer um inseticida natural, o material (1mg do óleo de eucalipto) foi diluído com 20ml de óleo de girassol e 10 ml de Tween 20 (utilizado como emulsificador). Foram diluídas 6 doses, em uma ordem onde a 1ª dose é a mais concentrada, sendo a 100%, a 2ª dose é 50% concentrada, a 3ª dose é 25%, a 4ª dose é 12,5, a 5ª dose é 6,25% e a última dose é a 6ª, sendo 3,12%. A dose 0 foi utilizada apenas água deionizada. A figura retrata a ordem inversa, começando pela dose 6.


Foram utilizadas 28 placas de petri e 28 papéis redondos, com apenas 5 gotas em cada papel e a  introdução de 10 formigas carpinteiras em cada placa de petri. As placas de petri foram para a estufa, com uma temperatura de 30*C. O resultado após 72 horas foram que as 2 doses mais concentradas (100% e 50%) obtiveram 100% de eficiência.
 

Controle Biológico – Outra Alternativa Interessante

 
Sua principal função é controlar as pragas agrícolas e os insetos transmissores de doenças a partir do uso de seus inimigos naturais, que podem ser outros insetos benéficos, predadores, parasitóides, e microrganismos, como fungos, vírus e bactérias. Trata-se de um método de controle sadio, que tem como objetivo final utilizar esses inimigos naturais que não deixam resíduos nos alimentos e são inofensivos ao meio ambiente e à saúde da população. Caso prático - Joaninha (Cryptolaemus Montrouzieri), predadora de diversas espécies de cochonilhas e pulgões.
 
 

Sustentabilidade, Vantagens E Desvantagens


As principais vantagens observadas ao adotar alternativas naturais e sustentáveis ao controle de pragas na agricultura são: a facilidade aquisição, baixo custo, eficácia, conservação da qualidade da água e dos solos, a segurança para os aplicadores de inseticidas (que muitas vezes não utilizam os EPI’s corretamente) e para os consumidores finais.

Cabe lembrar ainda que com consumidores cada vez mais exigentes e conscientes, as empresas têm buscando adotar ou se associar com causas e práticas sustentáveis, sobretudo no meio corporativo, onde essas empresas entendem que seu papel na sociedade é muito mais amplo e complexo que seu faturamento. O importante é fazer a diferença na sociedade, nesse sentido o termo da moda, muitas vezes sinônimo de sustentabilidade, é o: ESG  (Environmental, Social and Governance).  Spoiler: Em breve escreveremos um artigo completo sobre esse tema! Aguarde!

Por outro lado, como desvantagens, podemos citar a falta de tecnologia disponível para a obtenção de óleos essenciais ou inimigos naturais, em grande escala comercial, bem como a dificuldade de aplicação desses produtos em uma área muito extensa, sendo assim, muitas vezes vemos que os “clientes” dessas soluções muitas vezes são os pequenos produtores e agricultores familiares.
 

Conclusão


Diante da importância econômica do controle de pragas agrícolas e florestais e a necessidade de utilização de métodos alternativos mais seguros, sustentáveis, e compatíveis com o manejo integrado de pragas (MIP), é totalmente justificável a adoção, bem como realização, de novos estudos que avaliem o potencial   dos produtos naturais e seus efeitos sobre os insetos. A defesa fitossanitária é um dos problemas que mais chamam a atenção e estudo por parte do Governo, Engenheiros Agrônomos, Engenheiros Florestais, Agricultores, Silvicultores e estudantes dessas áreas e podemos esperar avanços exponenciais de produtos e tecnologias relacionadas a esse tema nos próximos anos.
 

Para se aprofundar mais

  • Achou esse tema interessante, confira nosso artigo relacionado sobre: Monitoramento de pragas e doenças e como realizar o Manejo integrado de pragas (MIP) na sua propriedade.

Sobre o autor

Priscila Taques

Estudante de Agronomia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Atua na área comercial da Agrosolutions.

Texto revisado e adaptado por Eduardo Rezende.

Compartilhar:
Compartilhar no WhatsApp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter

Veja também!